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Super Mario 64 DS: o remake portátil que desafiou o analógico

Relembramos Super Mario 64 DS, remake de lançamento do DS em 2004, comparando com o original de 1996: personagens extras, 150 estrelas, minigames e o eterno duelo do D-pad contra o analógico.

Nilton Rocha·2026-07-17·Nintendo EAD
Super Mario 64 DS: o remake portátil que desafiou o analógico
Nota InsertCoin
8.5/10

Tem jogo que a gente não analisa: a gente reencontra. Peguei meu Nintendo DS, soprei o cartucho por puro ritual (sim, eu sei que não precisa) e mergulhei de novo em Super Mario 64 DS. Depois, liguei o Nintendo 64 e joguei o original de 1996 lado a lado, fase por fase, pra responder uma pergunta que me persegue há vinte anos: o remake portátil é mesmo a versão definitiva do jogo que inventou o plataforma 3D — ou o clássico segue imbatível?

Um clássico de 1996 na palma da mão

Contexto rápido pra quem não viveu a época: em 21 de novembro de 2004, o Nintendo DS chegava às lojas da América do Norte (o Japão veio logo depois, em 2 de dezembro), com duas telas, tela de toque e uma proposta esquisitíssima para os padrões da época. E qual foi o jogo escolhido pela Nintendo pra provar que aquele aparelho estranho tinha músculo? Justamente um remake de Super Mario 64, o título de 1996 que abriu a era do Nintendo 64, definiu a gramática dos jogos 3D e apresentou ao mundo o controle analógico como o conhecemos.

A mensagem era ousada: "o console que revolucionou os anos 90 agora cabe no seu bolso". E, tecnicamente, era verdade. Ver o castelo da Peach rodando liso num portátil em 2004 foi um daqueles momentos de queixo caído que a gente não esquece. O público comprou a ideia: foram mais de 11 milhões de cópias vendidas ao longo da vida do DS, colocando o remake entre os dez jogos mais vendidos do portátil, com média 85 no Metacritic.

O que o DS adicionou ao original

Aqui está a parte em que o remake mais brilha: isso não é um port preguiçoso, é uma reimaginação generosa. A lista de novidades é longa:

  • Quatro personagens jogáveis: pela primeira vez, Mario não está sozinho — e nem é o protagonista inicial. Você começa a aventura com Yoshi e precisa resgatar Mario, Luigi e Wario ao longo do jogo. Cada um tem física própria: Yoshi flutua com o flutter jump e engole inimigos, Luigi corre mais rápido e dá uns passos sobre a água, e Wario é pesado, mas quebra blocos que ninguém mais quebra. Detalhe histórico: é até hoje o único jogo da série principal de Super Mario em que Wario é jogável.

  • 150 estrelas contra 120: são 30 Power Stars a mais que no N64, espalhadas em desafios novos, áreas inéditas (como Sunshine Isles) e missões exclusivas de cada personagem, incluindo os coelhos que você caça pelo castelo.

  • Chefes novos: Goomboss, King Boo e Chief Chilly guardam as chaves que liberam os outros personagens, dando um propósito real à estrutura expandida.

  • Power Flower: no lugar das três toucas coloridas do original, cada personagem ganha um poder próprio — Mario infla e flutua, Luigi fica invisível, Wario vira metal e Yoshi cospe fogo.

  • 36 minigames: jogáveis na tela de toque, do pôquer do Luigi ao estilingue do Wario. Parece bobagem, mas muitos deles viraram a semente do que seria a série New Super Mario Bros. e do próprio conceito de minigame tátil que dominou o DS.

  • Multiplayer para até 4 jogadores: via Download Play, com um único cartucho, todo mundo caçando estrelas numa arena. Em 2004, isso era feitiçaria pura no pátio da escola.

Voltando ao N64 depois disso, o original chega a parecer... vazio? O castelo de 1996 é mais silencioso, mais solitário. Tem quem prefira assim, e eu entendo — mas em conteúdo puro, o DS vence com folga.

Controles: o D-pad contra o analógico

Chegamos ao elefante na sala. Super Mario 64 nasceu para o controle analógico — o jogo e o manche do N64 foram desenhados juntos, um justificando o outro. A precisão de andar na ponta dos pés perto de um abismo, acelerar gradualmente numa curva, dosar a corrida antes de um salto triplo: tudo em Super Mario 64 depende de movimento analógico.

E o DS original... não tinha analógico. A Nintendo ofereceu três soluções: o D-pad digital com um botão de corrida (estilo Mario 2D), o controle pela tela de toque deslizando a stylus, e a famigerada thumb strap — uma alcinha com ponteira pro polegão que vinha na caixa do DS. Sendo honesto, nenhuma das três reproduz a sensação do manche do N64. Na minha maratona comparativa, o D-pad se mostrou o mais confiável: depois de uma hora, meu cérebro recalibrou e passei a jogar no "modo Mario clássico", correndo com o botão pressionado. Funciona bem em 90% do jogo. O problema são os outros 10%: as pontes estreitas de Rainbow Ride, as corridas contra o pinguim, qualquer missão que exija andar devagar em diagonal. Ali, o N64 vence sem discussão, e a crítica da época bateu exatamente nessa tecla — a ausência do analógico tornou os controles mais difíceis que os do jogo original.

Vale registrar: quem joga hoje num Nintendo 3DS pode usar o slide pad analógico? Não — o jogo continua lendo apenas entrada digital, então o debate permanece vivo. É o maior asterisco do remake, e não dá pra fingir que não existe.

Gráficos: 2004 contra 1996

Visualmente, a briga é menos equilibrada do que a nostalgia sugere. Os modelos do DS têm contagem de polígonos maior que os do N64: o Mario de 2004 tem dedos, chapéu modelado e rosto expressivo, enquanto o de 1996 é um origami charmoso de vértices pontudos. Texturas foram refeitas, o castelo ganhou detalhes, e a taxa de quadros se mantém estável. Na tela pequena do DS, tudo parece denso e caprichado.

Mas o N64 tem seus trunfos. O jogo original roda numa TV, com aquela suavização de textura característica do console que dá ao visual um ar sonhado, quase aquarelado, que combina perfeitamente com o tom surreal dos mundos dentro de quadros. O DS, sem filtragem equivalente, tem serrilhados mais evidentes quando você presta atenção. É a diferença entre uma pintura e uma maquete: a maquete tem mais peças, mas a pintura tem atmosfera. Em 2026, com os dois rodando em hardware original, eu diria que o DS envelheceu melhor tecnicamente — e o N64, esteticamente.

O que cada versão faz melhor

  • Melhor no DS: quantidade de conteúdo (150 estrelas, 4 personagens, chefes extras), modelos e texturas, minigames, multiplayer, mapa na segunda tela e a portabilidade — Super Mario 64 em sessões de dez minutos na fila do banco é um luxo.

  • Melhor no N64: controle analógico (disparado), a fluidez do moveset original do Mario sem depender de trocar de personagem, a apresentação em tela grande e aquela sensação de 1996 de estar pisando num mundo 3D pela primeira vez.

Qual vale jogar hoje?

Minha resposta sincera: depende do que você procura. Se quer estudar o clássico — entender por que Super Mario 64 mudou os videogames — vá de N64 (ou da versão original disponível no catálogo de Nintendo 64 do Switch), porque o analógico é metade da experiência. Se quer a versão mais completa do jogo, com mais coisas pra fazer, personagens diferentes e um monte de segredos novos, o DS é a escolha, e roda lindamente em qualquer DS ou 3DS. Eu terminei minha maratona alternando entre os dois sem conseguir abandonar nenhum — o que talvez seja a melhor resenha possível.

8.5/10
Veredito ·

Super Mario 64 DS é um dos remakes mais generosos que a Nintendo já fez: mais estrelas, mais personagens, mais mundos, mais razões pra voltar ao castelo da Peach. Ao mesmo tempo, é um remake que troca a alma mecânica do original — o controle analógico — por soluções engenhosas, porém imperfeitas. O resultado é um jogo essencial com um asterisco permanente: a melhor versão em conteúdo, a segunda melhor em sensação. Vinte e dois anos depois do lançamento do DS, ele continua sendo minha recomendação para conhecer (ou revisitar) o mundo de Super Mario 64 no bolso — desde que você aceite fazer as pazes com o D-pad. Nota 8,5: um clássico expandido com carinho, freado apenas pelo hardware que o abrigou.

Prós
Contras