Legend of Mana: a aquarela mais linda do PS1
Lançado pela Squaresoft em 1999/2000, Legend of Mana ergue o próprio mundo peça por peça, tem arte pintada à mão e trilha de Yoko Shimomura. Um cult que só cresce.
Tem jogo que a gente joga e tem jogo que a gente habita. Legend of Mana é do segundo tipo. Coloquei o disco de novo, quase 26 anos depois do lançamento japonês, e continuo achando que este é o RPG mais bonito que já passou pelo PlayStation 1. Não é hipérbole nostálgica: é aquarela mesmo, pintada à mão, quadro por quadro. Bora falar dessa joia da Squaresoft.
Antes dele, o Secret of Mana
Pra entender o tamanho do salto, vale lembrar de onde a série Mana (Seiken Densetsu, no Japão) veio. O ícone máximo era Secret of Mana, de 1993, no Super Nintendo: action-RPG de mundo aberto, com o famoso Ring Command e, o mais lendário, cooperativo para três jogadores na mesma tela. Depois veio Seiken Densetsu 3 (o Trials of Mana), que ficou anos preso no Japão. A série era sinônimo de combate em tempo real, fantasia colorida e a Árvore de Mana no centro de tudo. Quando o Koichi Ishii, pai da franquia, foi levar Mana para o PS1, ele podia ter feito "mais do mesmo". Não fez. Fez algo completamente diferente.
A arte que ainda tira o fôlego
A primeira coisa que te acerta em Legend of Mana é o visual. Enquanto meio mundo corria atrás do 3D poligonal em 1999, a Square apostou em cenários 2D pintados à mão, com uma paleta de cores que parece livro ilustrado de fada. Fa'Diel, o mundo do jogo, é um lugar onde cada tela é uma pintura: florestas em tons pastel, cidades tortas e fofas, desertos dourados. Os sprites dos personagens são grandes, expressivos, cheios de personalidade. Rodando num PlayStation, aquilo era feitiçaria. E o melhor: por ser 2D estilizado, envelheceu lindamente. Enquanto muito RPG poligonal da época hoje parece um amontoado de blocos, Legend of Mana continua deslumbrante.
Land Make: você monta o próprio mundo
Aqui mora a ideia mais doida e genial do jogo. Você não recebe um mapa-múndi pronto. Você constrói o mundo. O sistema Land Make funciona assim: o mapa começa praticamente vazio, uma grade de espaços em branco, e você posiciona artefatos (objetos que vai ganhando ao longo da aventura) nesses espaços para fazer surgir cidades, masmorras e regiões. Colocar um artefato do lado do outro muda até os elementos de Mana daquela área, o que afeta inimigos, itens e eventos. É o jogador quem literalmente decide a geografia da própria jornada. Nunca vi nada igual antes nem depois, e essa liberdade de "pintar" o mapa é parte central do charme.
68 eventos, zero mão na sua cabeça
Land Make casa com a estrutura mais corajosa (e divisiva) do jogo: Legend of Mana não tem uma linha reta de história principal. O enredo está espalhado em cerca de 68 eventos/missões independentes, e você os descobre na ordem que quiser, alguns podendo ficar de fora dependendo das suas escolhas. No meio dessa colcha de retalhos, três grandes arcos se destacam e dão peso emocional à coisa toda:
Arco dos Jumi: a raça de gente com corações de joia, caçada por seus núcleos preciosos. É o arco mais querido dos fãs, com Elazul, Pearl e a vilã Sandra. Comovente e melancólico.
Arco de Escad e Irwin (as fadas): quatro amigos de infância presos no conflito entre humanos e fadas, com Matilda, Irwin, Escad e Daena. Suas escolhas mudam o desfecho.
Arco dos Dragões (Drakonis): os dragoons Larc e Sierra, irmãos servindo a mestres dragões em lados opostos de uma guerra por poder.
Não esperar mão no ombro te dizendo pra onde ir incomodou muita gente em 2000. Hoje, essa mesma abertura é justamente o que torna Fa'Diel um lugar tão pessoal.
Combate action-RPG e a trilha da Yoko Shimomura
Na porrada, Legend of Mana mantém a alma da série: combate action em tempo real, na mesma tela da exploração, sem transição pra arena separada. Você controla o herói e pode levar até dois companheiros, encadeando ataques, golpes especiais (Special Techs) carregados por um medidor e ainda um sistema de forja e customização de armas absurdamente profundo pra quem gosta de se enfiar em menus. É gostoso, fluido e recompensa quem experimenta.
E aí tem a trilha sonora. Yoko Shimomura, a mesma de Kingdom Hearts e Street Fighter II, entrega aqui uma das melhores obras da carreira dela. O tema de abertura sozinho já é uma das peças mais bonitas da história da música de videogame, ponto. É uma coleção de faixas orquestrais e etéreas que combinam perfeitamente com o tom de conto de fadas do jogo. Vale ouvir mesmo sem estar jogando.
Dividido na época, cult hoje
Na estreia, o jogo vendeu muito bem no Japão — foram 400 mil cópias só na primeira semana. Mas a crítica ficou rachada: todo mundo elogiava os gráficos pintados à mão e a música, e ao mesmo tempo torcia o nariz para a falta de uma história central clara, chamando a experiência de "desconexa". Ele foi, por muito tempo, aquele Mana esquisito e incompreendido. O tempo, porém, foi generoso. Hoje Legend of Mana tem status de cult absoluto, cultuado justamente pelas qualidades que assustaram em 2000: a estranheza, a liberdade, a atmosfera onírica.
O remaster de 2021 e por que jogar
A boa notícia é que hoje é fácil viver isso. Em 24 de junho de 2021 a Square Enix lançou o remaster de Legend of Mana para Nintendo Switch, PS4 e PC (depois também mobile e Xbox), com visuais reprocessados, opção de desligar encontros aleatórios, mini-game de baralho e, o ponto alto, a trilha reorquestrada sob supervisão da própria Shimomura. Ela mexe no que precisava, respeita o que já era perfeito e deixa o clássico ainda mais convidativo.
Por que jogar? Porque Legend of Mana não é sobre correr até os créditos. É sobre passear por um mundo que você mesmo desenhou, colecionar histórias soltas que te marcam, ouvir uma das melhores trilhas de todos os tempos e se perder numa aquarela viva. Se você topa um RPG que troca a estrada reta por um jardim pra explorar no seu ritmo, ele é uma das experiências mais especiais que o PS1 nos deu. Ainda amo cada tela dele.