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Sonic do Master System: o primeiro ouriço dos brasileiros

Feito pela Ancient e com trilha de Yuzo Koshiro, o Sonic de 1991 do Master System foi o primeiro contato de milhões de brasileiros com o ouriço da Sega.

Nilton Rocha·28 de julho de 2026
Sonic do Master System: o primeiro ouriço dos brasileiros

Tem uma cena que todo mundo da minha geração conhece: a TV de tubo ligada na entrada AV, aquele cartucho cinza enfiado no Master System da Tectoy e o ouriço azul mais rápido do mundo esperando o start. Só que, diferente do resto do planeta, o Sonic que eu conheci primeiro não era o do Mega Drive. Era o Sonic the Hedgehog de 8 bits, lançado em 1991, e que por aqui virou coisa de família.

Um Sonic feito por um mestre da música

O detalhe que pouca gente sabia na época: a versão 8-bit não foi feita pela mesma equipe do jogo de Mega Drive. A Sega terceirizou o desenvolvimento para a Ancient, estúdio fundado pelo compositor Yuzo Koshiro — o mesmo gênio por trás das trilhas de Streets of Rage. Conta a história que Koshiro montou a Ancient justamente porque a Sega não conseguia fechar contrato com pessoas físicas, então ele criou a empresa para pegar o projeto. Virou negócio de família: a irmã dele, Ayano Koshiro, assinou a direção, e a mãe, Tomo Koshiro, também ajudou nos bastidores.

Ou seja: o Sonic que a molecada brasileira jogava era, no fundo, obra de um dos maiores compositores de videogame de todos os tempos. E dá pra sentir isso em cada nota.

Não é o Mega Drive encolhido — é outro jogo

Muita gente cresceu achando que o Sonic do Master System era só uma versão "capada" do original. Não é. É um jogo diferente, com level design próprio. O hardware de 8 bits não dava conta dos loops verticais e da velocidade insana do irmão de 16 bits, então a Ancient repensou tudo: as fases são mais horizontais, mais lentas e apostam bem mais na exploração do que na velocidade pura.

A abertura ainda é a Green Hill Zone, pra manter a familiaridade, mas dali pra frente o jogo segue caminho próprio. Surgem fases exclusivas que ficaram marcadas na memória de quem jogou: a Bridge Zone, a Jungle Zone, a claustrofóbica Labyrinth, além de Scrap Brain e Sky Base. Nada de correr no piloto automático — aqui você precisa olhar o cenário, subir, descer e vasculhar.

Outra diferença que mudava a estratégia: as Chaos Emeralds ficavam escondidas dentro das próprias fases, e não em estágios especiais como no Mega Drive. Você tinha que fuçar cada canto do mapa pra encontrá-las e garantir o final completo. E o clássico dos clássicos: quando o Sonic levava dano, ele perdia os anéis e, diferente da versão de 16 bits, não dava pra recuperá-los depois — o tranco doía de verdade.

A trilha da Bridge Zone é lendária

Se tem uma coisa que sobrevive intacta na cabeça de quem jogou, é a música. Koshiro rearranjou várias faixas icônicas que Masato Nakamura compôs para o jogo de Mega Drive, mas também criou temas originais só pra essa versão. E aí entra a Bridge Zone: aquela melodia relaxada, quase praiana, é até hoje uma das trilhas mais amadas de toda a franquia. Muita gente que nunca jogou o cartucho conhece a música de tanto ela circular por aí. É chiptune da melhor qualidade, feito por quem entendia do assunto como ninguém.

Por que ESSE foi o Sonic dos brasileiros

Aqui vem a parte que faz o coração apertar. Enquanto o mundo lá fora era território da Nintendo, no Brasil quem mandava era a Sega, pelas mãos da Tectoy. O Master System não foi só mais um console por aqui: ele foi o console. A Tectoy fabricava, distribuía e vendia o aparelho como ninguém, e ele seguiu firme nas prateleiras brasileiras por décadas — muito depois de ter sido aposentado no resto do planeta.

Por causa disso, a matemática é simples e emocionante: para milhões de crianças brasileiras, o primeiro Sonic da vida não foi o de Mega Drive — foi este, o de Master System. Enquanto os moleques americanos e japoneses corriam nos loops de 16 bits, a gente aqui explorava a Bridge Zone e a Jungle Zone achando que era assim que o Sonic sempre tinha sido. E, pra nós, era. Esse ouriço de 8 bits é parte da infância de um país inteiro.

Legado: o Game Gear e a vida longa do cartucho

Essa mesma versão, com pequenos ajustes de tela, virou também o Sonic de estreia do Game Gear, o portátil da Sega — o que ajudou a espalhar ainda mais o game. E, no Brasil, graças à longevidade absurda do Master System sob a Tectoy, o cartucho continuou sendo vendido e jogado por muito mais tempo do que qualquer um imaginaria. Não é exagero dizer que gerações inteiras se cruzaram em cima dessa mesma fita.

Vale a pena jogar hoje?

Vale, e muito. Justamente por ser mais lento e exploratório, o Sonic do Master System envelheceu de um jeito diferente do irmão de 16 bits: ele é mais um plataforma "de cabeça" do que "de reflexo". Encarar a Bridge Zone de novo, ouvir aquela trilha e caçar as esmeraldas escondidas é uma viagem direta pra sala de casa dos anos 90. Seja num Master System de verdade, num Game Gear ou num emulador, esse ouriço merece respeito — ele foi, para o Brasil, o começo de tudo.

Se você é brasileiro e teve um Master System, provavelmente não precisa que eu explique nada disso. Você já está ouvindo a música da Bridge Zone só de ler. E é exatamente esse o ponto.