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Chrono Trigger: o JRPG que derrotou o próprio tempo

Lançado em 1995 pela Squaresoft na Super Nintendo, Chrono Trigger uniu Sakaguchi, Horii e Toriyama num JRPG de viagem no tempo que se tornou lenda. Recordamos porquê.

Nilton Rocha·28 de julho de 2026
Chrono Trigger: o JRPG que derrotou o próprio tempo

Poucos cartuchos me marcaram tanto como aquele com a lombada azul do Chrono Trigger. Meti-o na minha Super Nintendo a pensar que era só mais um RPG bonito, e saí de lá convencido de que tinha jogado o melhor JRPG da minha vida. Trinta anos depois, continuo a pensar o mesmo. Deixa-me contar-te porquê.

A "Dream Team" que ninguém achava possível

Em 1995, a Squaresoft juntou três nomes que, sozinhos, já eram lenda, e chamou ao resultado "Dream Team". Havia Hironobu Sakaguchi, o pai de Final Fantasy. Havia Yuji Horii, criador de Dragon Quest. E havia Akira Toriyama, o homem por trás de Dragon Ball e designer das personagens de Dragon Quest, a tratar da arte. Era como pôr Pelé, Maradona e Cruyff na mesma equipa. A ideia declarada era fazer "algo que ninguém tinha feito antes" e, olhando para trás, pode dizer-se que conseguiram.

O jogo saiu na Super Famicom a 11 de março de 1995 no Japão e chegou à Super Nintendo americana a 22 de agosto de 1995. Muitos de nós só lhe pegámos bem mais tarde, via emulador ou importação, mas nunca envelheceu de verdade.

Viajar no tempo, de mecânica a narrativa

A viagem no tempo não é só um tema em Chrono Trigger: é a espinha dorsal de tudo. Começas numa alegre feira medieval, cais por um portal e, de repente, andas a saltar entre a Pré-História, a Idade Média, o presente, um futuro apocalíptico e o Fim dos Tempos. O génio da coisa é que as tuas ações num período ecoam nos outros. Plantar uma pequena semente no passado muda a paisagem do futuro. Corrigir um erro histórico reescreve o presente.

Essa costura entre eras transforma o RPG numa caixa de puzzles emocional. Não estás só a salvar o mundo de Lavos, aquele parasita cósmico que devora o planeta; estás a perceber como cada época se liga, e cada revelação dá-te aquele arrepio de "não acredito que isto está ligado àquilo".

Batalhas sem transição e as Techs combinadas

Quem vinha de outros JRPG da época estranhava da melhor maneira: não havia um ecrã de batalha separado. Os inimigos apareciam no próprio mapa e o combate acontecia ali mesmo, sem aquele corte com flash e musiquinha. Isso tornava tudo mais fluido e menos cansativo.

Por baixo corria o sistema Active Time Battle, herdado de Final Fantasy, com aquelas barrinhas a encher em tempo real. Mas a jogada de mestre eram as Techs: golpes especiais de cada personagem que podiam ser combinados. Duas Techs davam uma Dual Tech; três formavam uma Triple Tech. O posicionamento importava, porque muitos golpes acertavam numa área consoante onde estavam os inimigos. Montar o grupo certo para lançar uma combinação devastadora era pura satisfação.

13 finais e o New Game+

Chrono Trigger foi um dos primeiros jogos que me fez querer acabar outra vez assim que os créditos apareceram. O motivo tem nome: New Game+. Ao terminá-lo, recomeças com as personagens no nível em que estavam, o que te permite enfrentar o Lavos em momentos bem diferentes da história.

Isto desbloqueia os 13 finais do jogo, uma raridade absurda para a época e algo que a própria Nintendo Power chamou revolucionário. Cada final muda consoante o quão longe chegaste antes de derrotar o vilão. O mais lendário de todos: se venceres o Lavos logo no início de um New Game+, usando só o Crono e a Marle, ganhas acesso a uma versão especial do Fim dos Tempos onde conversas com avatares dos próprios criadores - Sakaguchi, Horii e Toriyama. É o tipo de recompensa maluca que nos faz amar esta era dos videojogos.

A banda sonora que fica na cabeça para sempre

Se há uma coisa que aperta o coração de quem jogou, é a música. A maior parte da banda sonora é de Yasunori Mitsuda, então um compositor jovem e praticamente estreante, que pôs a alma no projeto - literalmente ao ponto de adoecer durante a produção. Quando teve de se afastar, quem entrou para fechar algumas faixas foi nada menos que Nobuo Uematsu, o mestre de Final Fantasy.

O resultado são temas eternos como "Corridor of Time", "Frog's Theme" e "Chrono Trigger" em si. Ainda hoje, se ouço as primeiras notas, volto logo para a frente daquela TV de tubo.

Personagens que nunca esquecemos

Nenhum RPG te segura sem boas personagens, e aqui o elenco é impecável. Crono, o herói de cabelo espetado que nunca diz uma palavra e mesmo assim se torna um ícone. Marle e Lucca, as parceiras de aventura. Robo, o robô com mais coração que muita gente. Ayla, a guerreira das cavernas. E dois favoritos absolutos: Frog, o cavaleiro amaldiçoado que virou sapo e fala como um nobre shakespeariano, e Magus, o antagonista sombrio cuja história dá uma das reviravoltas mais marcantes do jogo.

Porque é sempre citado entre os melhores

Não é exagero de fã nostálgico: Chrono Trigger é constantemente listado como um dos melhores videojogos alguma vez feitos e um dos títulos mais importantes da geração de 16 bits. Acertou em tudo ao mesmo tempo - narrativa, sistema de batalha, ritmo, banda sonora, arte - e ainda respeita o teu tempo, sem enrolação nem grind obrigatório. É um RPG que qualquer pessoa consegue começar e poucas conseguem largar.

Onde jogar hoje

A boa notícia é que dá para reviver este clássico sem andar à caça de um cartucho. A versão de Nintendo DS (2008) é considerada a mais completa, com cinemáticas animadas, interface de dois ecrãs e até uma masmorra nova. Em iOS e Android (a partir de dezembro de 2011) jogas com controlos de toque, e uma grande atualização em 2018 trouxe de volta as cinemáticas e outras funcionalidades. E no Steam, desde 2018, corre em alta resolução no PC - o início foi trôpego, mas atualizações posteriores deixaram a experiência bem redonda, com opções visuais e melhorias de qualidade de vida.

Seja qual for a plataforma que escolheres, faz um favor a ti próprio: reserva um fim de semana, entra no primeiro portal e deixa o tempo passar. Chrono Trigger continua tão bom como era em 1995 - talvez até mais, porque agora sabemos o quanto foi especial.