Sonic do Master System: o primeiro ourico dos brasileiros
Feito pela Ancient e com banda sonora de Yuzo Koshiro, o Sonic de 1991 do Master System foi o primeiro contacto de milhoes de brasileiros com o ourico da Sega.
Ha uma cena que toda a gente da minha geracao conhece: a TV de tubo ligada na entrada AV, aquele cartucho cinzento enfiado no Master System da Tectoy e o ourico azul mais rapido do mundo a espera do start. So que, ao contrario do resto do planeta, o Sonic que conheci primeiro nao era o do Mega Drive. Era o Sonic the Hedgehog de 8 bits, lancado em 1991, e que por ca se tornou coisa de familia.
Um Sonic feito por um mestre da musica
O pormenor que pouca gente sabia na epoca: a versao 8-bit nao foi feita pela mesma equipa do jogo de Mega Drive. A Sega subcontratou o desenvolvimento a Ancient, estudio fundado pelo compositor Yuzo Koshiro — o mesmo genio por tras das bandas sonoras de Streets of Rage. Reza a historia que Koshiro montou a Ancient justamente porque a Sega nao conseguia fechar contrato com pessoas singulares, por isso criou a empresa para agarrar o projeto. Tornou-se um negocio de familia: a irma, Ayano Koshiro, assinou a realizacao, e a mae, Tomo Koshiro, tambem ajudou nos bastidores.
Ou seja: o Sonic que a miudagem brasileira jogava era, no fundo, obra de um dos maiores compositores de videojogos de todos os tempos. E da para sentir isso em cada nota.
Nao e o Mega Drive encolhido — e outro jogo
Muita gente cresceu a achar que o Sonic do Master System era so uma versao "cortada" do original. Nao e. E um jogo diferente, com level design proprio. O hardware de 8 bits nao dava conta dos loops verticais nem da velocidade insana do irmao de 16 bits, por isso a Ancient repensou tudo: as fases sao mais horizontais, mais lentas e apostam bem mais na exploracao do que na velocidade pura.
A abertura ainda e a Green Hill Zone, para manter a familiaridade, mas dali para a frente o jogo segue caminho proprio. Surgem fases exclusivas que ficaram marcadas na memoria de quem jogou: a Bridge Zone, a Jungle Zone, o claustrofobico Labyrinth, alem de Scrap Brain e Sky Base. Nada de correr em piloto automatico — aqui e preciso olhar o cenario, subir, descer e vasculhar.
Outra diferenca que mudava a estrategia: as Chaos Emeralds ficavam escondidas dentro das proprias fases, e nao em fases especiais como no Mega Drive. Tinhas de esquadrinhar cada canto do mapa para as encontrar e garantir o final completo. E o classico dos classicos: quando o Sonic levava dano, perdia os aneis e, ao contrario da versao de 16 bits, nao dava para os recuperar depois — o toque doia a serio.
A banda sonora da Bridge Zone e lendaria
Se ha uma coisa que sobrevive intacta na cabeca de quem jogou, e a musica. Koshiro rearranjou varias faixas iconicas que Masato Nakamura compos para o jogo de Mega Drive, mas tambem criou temas originais so para esta versao. E ai entra a Bridge Zone: aquela melodia relaxada, quase praiana, e ate hoje uma das bandas sonoras mais amadas de toda a franquia. Muita gente que nunca jogou o cartucho conhece a musica de tanto ela circular por ai. E chiptune da melhor qualidade, feito por quem entendia do assunto como ninguem.
Porque foi ESTE o Sonic dos brasileiros
Aqui vem a parte que aperta o coracao. Enquanto o mundo la fora era territorio da Nintendo, no Brasil quem mandava era a Sega, pelas maos da Tectoy. O Master System nao foi so mais uma consola por ca: foi a consola. A Tectoy fabricava, distribuia e vendia o aparelho como ninguem, e ele seguiu firme nas prateleiras brasileiras durante decadas — muito depois de ter sido reformado no resto do planeta.
Por causa disso, a conta e simples e emocionante: para milhoes de criancas brasileiras, o primeiro Sonic da vida nao foi o de Mega Drive — foi este, o de Master System. Enquanto os miudos americanos e japoneses corriam nos loops de 16 bits, nos aqui explorabamos a Bridge Zone e a Jungle Zone a achar que era assim que o Sonic sempre tinha sido. E, para nos, era. Este ourico de 8 bits e parte da infancia de um pais inteiro.
Legado: o Game Gear e a vida longa do cartucho
Esta mesma versao, com pequenos ajustes de ecra, tornou-se tambem o Sonic de estreia do Game Gear, a portatil da Sega — o que ajudou a espalhar ainda mais o jogo. E, no Brasil, gracas a longevidade absurda do Master System sob a Tectoy, o cartucho continuou a ser vendido e jogado durante muito mais tempo do que qualquer um imaginaria. Nao e exagero dizer que geracoes inteiras se cruzaram em cima da mesma fita.
Vale a pena jogar hoje?
Vale, e muito. Justamente por ser mais lento e exploratorio, o Sonic do Master System envelheceu de forma diferente do irmao de 16 bits: e mais um plataformas "de cabeca" do que "de reflexo". Encarar a Bridge Zone de novo, ouvir aquela banda sonora e cacar as esmeraldas escondidas e uma viagem direta para a sala de casa dos anos 90. Seja num Master System a serio, num Game Gear ou num emulador, este ourico merece respeito — foi, para o Brasil, o comeco de tudo.
Se es brasileiro e tiveste um Master System, provavelmente nao precisas que eu explique nada disto. Ja estas a ouvir a musica da Bridge Zone so de ler. E e exatamente esse o ponto.